João Saldanha ocupa um lugar raro na história do futebol brasileiro. Foi treinador, comentarista, repórter e, acima de tudo, um observador afiado de um país que transformou a bola em identidade nacional. Embora seja lembrado principalmente pela passagem no comando da Seleção Brasileira às vésperas da Copa de 1970, há um capítulo menos conhecido de sua trajetória que ajuda a explicar a dimensão de seu legado: ele foi contratado duas vezes pela revista PLACAR, em uma relação que uniu jornalismo, personalidade e futebol em estado bruto.
Essa conexão com a revista não foi mero detalhe de currículo. Em diferentes momentos, a PLACAR buscou em Saldanha algo que poucos profissionais conseguiam entregar com a mesma força: leitura crítica do jogo, coragem para contrariar consensos e uma escrita atravessada pela experiência de quem conhecia o futebol por dentro. Não se tratava apenas de comentar resultados ou escalar culpados após derrotas. Saldanha ajudava a iluminar bastidores, desmontar mitos e traduzir o Brasil a partir do esporte mais popular do país.
Um personagem maior que o próprio cargo
Antes de consolidar a imagem de voz contundente no jornalismo esportivo, João Saldanha já havia construído uma trajetória singular. Ex-técnico do Botafogo e comandante da Seleção em um período decisivo, ele transitava com naturalidade entre o campo e a redação. Essa condição dupla o transformou em figura incomum: alguém com autoridade para falar de tática, vestiário, política esportiva e cultura do futebol sem recorrer a fórmulas prontas. Seu estilo direto, por vezes incômodo, sempre foi parte da notícia.
Foi justamente essa franqueza que o tornou tão influente — e, em muitos momentos, tão controverso. Saldanha não cultivava neutralidade artificial nem escondia convicções para agradar cartolas, dirigentes ou autoridades. Sua personalidade ficou cristalizada em uma das frases mais lembradas da história do esporte brasileiro:
“O presidente escala o ministério, eu escalo a seleção.”
A declaração, associada ao período em que dirigia a equipe nacional, virou símbolo de independência em um futebol frequentemente atravessado por pressões externas.
As duas passagens pela PLACAR
O fato de ter sido chamado duas vezes pela PLACAR ajuda a dimensionar o peso de sua assinatura. Em uma revista que se firmou como referência na cobertura esportiva brasileira, Saldanha representava mais do que um nome de prestígio: era uma grife de credibilidade e personalidade. Sua presença dialogava com o DNA da publicação, que sempre buscou ir além da cobertura factual para interpretar o futebol como fenômeno social, político e cultural.
Ao integrar a revista, Saldanha levava para o papel o mesmo vigor que exibira à beira do gramado. Seus textos e análises ganhavam força justamente porque não eram assépticos. Havia neles opinião, repertório, memória e, sobretudo, uma visão de futebol conectada à vida real. Em um ambiente esportivo muitas vezes dominado por lugares-comuns, ele fazia o contrário: provocava reflexão. Essa combinação explica por que sua relação com a PLACAR permanece como uma curiosidade valiosa para leitores e pesquisadores da imprensa esportiva.
Legado que atravessa gerações
Revisitar a história de João Saldanha é também revisitar um momento em que o jornalismo esportivo brasileiro consolidava linguagem própria, mais crítica, mais autoral e menos submissa aos poderosos do futebol. Seu legado não se resume às escalações, aos embates públicos ou à fama de homem destemido. Ele ajudou a mostrar que falar de futebol é falar de poder, identidade, emoção e disputa de narrativas — algo que continua atual no noticiário contemporâneo.
Décadas depois, Saldanha segue sendo uma referência para quem entende que o melhor jornalismo esportivo não vive apenas de placares, estatísticas e entrevistas protocolares. Vive também de contexto, memória e coragem. Ao ser lembrado por suas duas passagens pela PLACAR, o ex-técnico da Seleção reaparece em toda a sua complexidade: um personagem que soube pensar o futebol brasileiro como poucos e que transformou cada texto, comentário ou decisão em parte de uma história maior — a do próprio país do futebol.


